sábado, 28 de novembro de 2009

Faz tempo que não escrevo, mas é assim mesmo...
A vida se instala sem esperar pelo meu convite,
a vida se faz presente,
mesmo comigo dormente,
carente,
injuriada, ausente,
mesmo quase sem alma, cheirando a lágrimas,
a vida vai existir e sem pudor não vai esperar por mim...

sábado, 1 de agosto de 2009

Desesperança
Càh Morandi
Remexo dentro de mim,
nem sempre é fácil saber
a parte de nósque ficou no caminho:toco...
faço a ferida arder.
Sentir a ferida,
é a maneira mais rápida de curá-la.
Nada em mim foi covarde,
nem mesmo as desistências:
desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem.

quinta-feira, 16 de julho de 2009


Ressonância Poética

Nestes dias gelados
Segregados de nós
Aqui tudo se ausenta
Perde-se e vai embora
No som das cifras musicais.

Meu coração pulsa absorto,
Doido por amor, cheio de veias,
HDL, rancor, centelhas...

Sinto falta dos meus absurdos,
do meu eufemismo,
do nosso exagero.
Ah, o desprezo.
O desejo comedido é um letal veneno,
É coisa breve, sem flama,
É terrestre...

Ando agora assim,
bebendo cervejas, destilados,
tomando cicutas, meditando, oclusa,
escrevendo gozo em fantasia,
cheirando gás, construindo aríetes,
cortando pulsos...


Agora vazia,
Sem teu sorriso colorido
que agora é tão etéreo para mim,
invisível...
O que me resta?
Só o mundo,desdenhado do meu imane sentimento



(Andréa lima)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Feliz Aniversário Chico... 65 anos de poesia!


Mulher, vou dizer quanto te amo

(Chico Buarque)



Mulher, vou dizer quanto te amo
Cantando a flor
Que nós plantamos
Que veio a tempo
Nesse tempo que carece
Dum carinho, duma prece
Dum sorriso, dum encanto
Mulher, imagina o nosso espanto
Ao ver a flor
Que cresceu tanto
Pois no silêncio mentiroso
Tão zeloso dos enganos
Há de ser pura
Como o grito mais profano
Como a graça do perdão
E que ela faça vir o dia
Dia a dia mais feliz
E seja da alegria
Sempre uma aprendiz
Eu te repito
Este meu canto de louvor
Ao fruto mais bendito
Desse nosso amor

quinta-feira, 18 de junho de 2009




Aula de desenho
(Maria Esther Maciel)


Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço.
De aço, o papel.
Esboço uma face a régua
e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato.
Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim,
afasto-me e constato:
na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

sexta-feira, 12 de junho de 2009


Como te amo?
Elizabeth Barrett Browning

Como te amo?

Deixa-me contar de quantas maneiras.

Amo-te até ao mais fundo,

ao mais amplo e ao mais alto

que a minha alma pode alcançar

buscando, para além do visível dos limites

do Ser e da Graça ideal.

Amo-te até às mais ínfimas necessidades

de todos os dias à luz do sol e à luz das velas.

Amo-te com liberdade,

enquanto os homens lutam pela Justiça;

Amo-te com pureza,

enquanto se afastam da lisonja.

Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas

e com a fé da minha infância.

Amo-te com um amor que me parecia perdido

- quando perdi os meus santos -

amo-te com o fôlego,

os sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!

E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Instante
Anna Maria Feitosa

A vida é essa luz
No teu rosto
é esse brilho inconstante
dos teus olhos na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
nada mais.

Eu e você?
(Andréa Lima)

Entre eu e você
o incabível,
A comunhão,
O espetáculo, o ostracismo.
A alcova, o chão.

Entre eu e você
o tempo,
um dia de dezembro
e o passado atravessado em nós.

Eu, você e o impulso,
a desordem, o tumulto
a intifada, a revolução.
Entre eu e você,
uma linha imaginária
Que nos separa,
Paredes vazadas, persianas
olhares tangenciais,
imprecisos, desfocados
opacos.

Entre eu e você, a longitude,
Hiatos, ilhas pacíficas, antárticas,
ínfimas, geladas,
florestas intocadas.

Entre eu e você um sugadouro
de vontade, delícias, pornografias
que se esvai pelo ralo da pia,
dos utensílios de mim e que um dia foi de tantos nós.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Até breve Mario...

Rosto de Ti
Mario Benedetti


Tenho uma solidão tão concorrida

tão cheia de nostalgia
de rostos teus de adeuses
faz tempo e beijos
bem vindos de primeiras de troca
e de último vagão.
Tenho uma solidão tão concorrida
que posso organizá-la como uma procissão
por cores, tamanhos e promessas
por época, por tato e sabor.
Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem com meu rosto de ti.
Estou cheio de sombras de noites.

Latras e imagens poéticas

terça-feira, 21 de abril de 2009

Retirada

Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto, rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar
que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.

(Flora Figueredo)

Adoro essa música!!!

sábado, 18 de abril de 2009


Arrumação

Ando fazendo o que gosto,
me esvaziando,
tirando meus pedaços,
os cacos, arranhões, fiapos.
Tirando o talvez,
o riso minguante,
minhas unhas postiças,
minhas chitas,
minhas máscaras,
adornos,
guizos,
gozos,
os prazeres solitários,
os amores, melancolias,
dores e meus penduricalhos.

Em caixas gigantescas de mim sobraram
as palavras desencontradas, ébrias,
com desejos de virarem versos, asas.
E quando menos espero,
Zumpt!!!
Voam altivas para o nada...
Restaram ainda ausências,
um oco, um eco,
um Saara,
Uma mudez infinita,
uma súbita sensação de espaço, buraco,
via láctea, uma lua vazia,
sem dragão, sem santo,
sem americanos e sua bandeira ordinária.


E pelo movimento de rotação
de fluxo e refluxo de marés,
desses dias lunares
encho-me de novo,
de ferida, saliva, de vida, paixão,
escárnios, orgasmos, vinho e solidão.
Encho-me de poesia, de tardes sem fim,
de mesmices, abandonos, de remédios para dormir,
de horas, sonhos, chocolates, de livros, cartas sem destinatários...
E meio a tanto tralha, urgências, arquivos existenciais,
Continuo em mim desabitada.

(Andréa Lima)

segunda-feira, 30 de março de 2009

DIA INTERNACIONAL DO TEATRO


O PÁRTENON

A cortina se eleva anunciando a palavra, o movimento do corpo,
O olhar que fala, o gesto que inicia o ato,
A lágrima que finaliza...
Eu sou a voz que foge da garganta
atravessando a sala, atropelando a acústica
como uma estrela cadente e vai repousar dentro da gente...

Eu sou o sentimento no palco,
a máscara do riso e a face caótica do drama.
Sou o teatro mambembe que mora na rua
e fala com o povo, conta história,
canta a poesia e a memória popular.
Eu sou esse povo em retalhos,
com as veias saltando dos braços
fadigados por tanto labor, sou a prostituta descapitalizada,
a santidade desmascarada pelo despudor,
sou a multidão de vermelho em passeatas,
sou a preguiça espichada do brasileiro,
sou o solitário e a solidão que o corteja.

Sou o erudito, o muro de Píramo,
a razão politizada e humana de Brecht
e a lascívia Rodriguiana.
Sou o teatro herético e crédulo,
O oprimido e o glamour,
a arte que vive do palco, de um aplauso,
da indignação, da emoção, do silêncio,
da dor, do gozo e da liberdade,
senhoras e senhores eu sou o teatro,
mas na coxia, ás vezes, o vazio se instaura,
emudecendo a minha voz, a arte “empobrece”
pois o mercado que acumula me anula,
me suborna, controla, me segrega,
avilta a minha essência, faz de mortalha a minha alma...

(Andréa lima)

quinta-feira, 26 de março de 2009

terça-feira, 24 de março de 2009




Eu, modo de usar
(Marta Medeiros)


Pode invadir ou chegar com delicadeza,

mas não tão devagar que me faça dormir.

Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.

Acordo pela manhã com ótimo humor

mas permita que eu escove os dentes primeiro.

Toque muito em mim, principalmente nos cabelos

e minta sobre minha nocauteante beleza.

Tenho vida própria, me faça sentir saudades,
conte algumas coisas que me façam rir,

mas não conte piadas e nem seja preconceituoso,

não perca tempo cultivando este tipo de herança de seus pais.

Viaje antes de me conhecer,

sofra antes de mim para reconhecer-me num porto, num albergue da juventude.

Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.

Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras,

elas serão raras e sempre por uma boa causa.

Respeite meu choro, me deixe sozinha,

só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre
que eu também gosto de ser contrariada

[Então fique comigo quando eu chorar,combinado?].

Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:

boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado,
você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade.

Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.

Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.

Seja um pouco caseiro e um pouco da vida.

Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.

Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.

Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido

e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês. Goste de um esporte não muito banal.

Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.

Quero ver você nervoso, inquieto,

tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.

Não me conte seus segredos, me faça massagem nas costas.

Não fume ou fume (eu ainda prefiro que não), beba, chore...
Me rapte! E se nada disso funcionar,
experimente simplesmente me amar!!!

terça-feira, 17 de março de 2009

Pela Diversidade!!!

Divas II

Ao Grupo em defesa da Diversidade Afetivo-Sexual

Deixe a menina aparecer,
se colorir, se revirar e extenuar-se de avessos,
loucuras, orgasmos e mistérios.
Deixe a menina, deixe a mulher,
que elas se transformem em estradas,
que saiam das entrelinhas, rasguem seus casulos,
quebrem muros, saiam dos quadrados,
cortem os asfaltos com seus pés de fada,
com seus pés de dama,
com suas garras de onça.
E elas sangram, elas se doam,
choram, viram luzes, estrelas, Divas e correntezas.

Vai menina, ser nítida,
palavras, fogo e arco-íris na vida!
Vai amar a poesia, a alma feminina,
vai ser essa escrita que se fabrica na luta,
na dor, na lida, nos beijos e desejos seus.
Tornar-se fel e depois se derramar de doçuras,
viver o que tem vontade de ser,
ide, cara senhora, tingir de lilás o nosso céu.
Sai destas frestas, voa mulher,
dirige esse vagão,
se permita sair dos trilhos,
deixe que vejam seus brilhos,
suas risadas, sua emoção.

Descasque-se, vire esse mundo,
rompa couraças, se desabroche,
pois é hora de ir à forra,
deixar os guetos, sair dos quartos.
Te expõe, se mostra,
ela e a vida te esperam lá fora...
Vai às ruas te exibir, falar da tua agonia,
do teu dia-a-dia,
da necessidade da alforria,
do seu despir, amar, sentir,
do seu inventar.
Menina, pega Maria pela mão
e vai amá-la com liberdade,
no clarão de um dia de sol,
no alvorecer da diversidade.
(Andréa Lima)

sábado, 14 de março de 2009

Uma homenagem no dia da poesia...

Blecaute
Por Andréa Lima

Ao “poeta livre de asas partidas”

O poeta escreve ladrilhos de palavras,
concretos, decrépitos, duros, frios,
pedra de gelo, calçadas.
O poeta assovia a solidão,
andava bambeando pelo passadiço sombrio
da razão e da loucura,
do tédio e do alívio do escrever.
É ele que compõe a gramática que sai de si mesmo,
literatura da vida real
e assim o poeta gotejava sua epopéia de morro e de sonhos.

O mar mergulha na obra do poeta,
Ou é o poeta que se embriaga de ondas?
É lá no fundo que ele sente sua alma profunda, misteriosa, silenciosa,
Confunde-se o mar com o poeta em procelas cotidianas.
Qual é a cidade da tua poesia?
O tráfego, as ruelas esmiuçadas do conglomerado urbano,
doente, caótico, violento, perdulário e vi?l
Eis o latifúndio impróprio onde emerge tua poesia...
Mas a cidade é iluminada, edificada pelos poetas de gravatas,
Com seus requintes cruéis, com seus lirismos presunçosos de academia.
E ele, o poeta da periferia permanece na obscura injustiça,
no seu pesadelo diário,
na sua boêmia encantada,
por isso chora,
escreve com tintas que sai das vísceras,
das veias, da pele que tem história,
da carne torturada,
de uma loucura fabricada,
imposta...

Fecha-se a cortina dos sentidos,
e mesmo assim o poeta teima,
emerge dos logradouros da injustiça pelas letras,
faz seus poemas marginais,
com seus versos lancinantes, clamorosos, nus.
E surda -
a cidade ignora o poeta.
A poesia mimeografada agoniza...
O poeta adormece com choques de iniqüidades.
A poesia resiste,
expatriada, clandestina, injustiçada, sufocada,
ainda, assim, VIVA.

Para os poetas "marginais": tortura e prisão... A história de um poeta potiguar

Da série: “O Spleen de Natal” - [6-25]
DEU BLECAUTE NA POESIA
17 de Setembro de 2008
Por Franklin Jorge



Blecaute é o mais notório disfarce de Edgar Borges, seu duplo de vinte e sete anos, poeta, artista plástico, performático, pintor de paredes, eletricista e, sobretudo, um individuo eternamente suspeito aos olhos biliosos das policia que, mal orientada, violenta e autoritária, por dever de oficio, costuma ver suspeitos em toda a parte.

Hoje mesmo me aconteceu uma coisa chata, confessa. Quando eu ia atravessar a Avenida Rio Branco, na esquina da Rua João Pessoa, do outro lado da calçada um policial me chamou. Fui, e ele perguntou o meu nome e se eu era daqui mesmo de Natal, o que eu fazia, de onde vinha e para onde ia... Ele me interrogou porque estava grilado com o meu modelito. Ele achou estranha a minha produção e examinou-me dos pés à cabeça. Queria saber porque me visto assim e pediu meus documentos. Me revistou ali mesmo, no meio da rua, como se eu fosse um criminoso. Além disso não acreditou quando lhe disse que estava vestido desse jeito porque ia dar uma entrevista... Cara, quase entrei pelo cano quando lhe disse isso. O meganha não acreditou.

Essa não terá sido a primeira humilhação dessa natureza sofrida por Blecaute. Há muitos anos a policia o persegue e incomoda, embora ele não tenha cometido nenhum delito. Ele crê que a discriminação decorre do fato de ser ele negro, pobre e de se vestir bem, ou melhor, segundo um padrão estético inusitado. Personalíssimo.

Em Mossoró, quando fui fazer o lançamento de um pôster-poeta, em 1985, também passei por isso. Uma manhã, muito cedo, saí para dar uns roles pela cidade. E ao passar diante de uma delegacia, um policial que estava na porta debochou da minha produção. Isso é lá traje de homem, disse, porém não me importei e continuei na minha, sem ligar para aquele recalcado. Naquela ocasião eu estava vestido com uma roupa lilás bem folgada, porque eu curto me vestir assim...

Outra vez, em Jardim do Seridó, no outro extremo do estado, fui revistado e levado ao quartel da policia. Acusaram-me de estar usando pulseiras e boina, adereços que os policiais consideravam coisa de veado. Também queriam me obrigar a confessar que eu usava maconha. Estavam certos de que um negro vestido daquele jeito, usando boina e pulseiras, só podia ser um maconheiro. Dialético e pirandeliano, Blecaute suspira e acrescenta, É o meu traje a rigor que incomoda eles.

A lembrança de tantas situações vexatórias deixa Blecaute indignado. Sua voz, de natural sempre tão límpida e clara, emperra. E ele treme de raiva, de dor, de humilhação e de revolta diante do comportamento abusivo dos policiais que se divertem fazendo o mal. Sem perder o humor, informa que já fez turismo por todas as delegacias de Natal.

Cara, é uma coisa louca a gente olhar para aqueles dizeres – Vamos viver sem violência --, pintados nas portas das viaturas. O pior é que ainda pintaram aquela mão segurando uma flor. Puro descaramento do governo, que prega uma coisa e faz outra muito diferente. A contradição começa quando, ao levantar a vista, a gente vê dentro das viaturas aqueles trogloditas armados até os dentes de escopetas e metralhadoras, olhando pra gente por cima dos ombros. É aí que eu me pergunto: a quem o governo de Geraldo Melo quer enganar com essa história[] nunca a policia foi tão violenta como nessa época do Vamos viver sem violência.

No fim de 1983, a policia furou os meus testículos. De manhã bem cedo eles me pegaram e me levaram para um trecho da Via Costeira, que naquele tempo ainda era um deserto. Lá, furaram meus testículos com um sabre. Foi quando, simplesmente, vi a morte de frente, pois pensei que não sairia daquela com vida. Eram três homens; o cabo, um soldado e o motorista, que me pegaram pra Cristo. Um deles, de nome Andrade, ainda mora na Rua Guanabara, por onde passo todos os dias saindo ou voltando para casa. Eles introduziram ainda um arame através do meu pênis. Eles queriam satisfazer em mim instintos bestiais. Nunca tive tanto medo em minha vida...

Seus gritos de dor foram ouvidos em Mãe Luiza, conta Blecaute. Muita gente correu de suas casas para ver o que estava acontecendo lá embaixo. E os policiais, que por natureza são covardes, sentindo-se observados pelos moradores que nos espiavam do alto do morro, largaram de mim. Blecaute ficou como morto sobre a areia, despido e estrebuchante, esvaindo-se em sangue.

Blecaute foi preso na Praia do Meio, nas imediações do Bar do Boliviano, muito conhecido pelos malucos da área. Ficava no chamado Baixo, um lugar de boemia e prostituição. Os policiais, um dos quais era seu vizinho, implicaram com a excentricidade do seu modelito criado para arrasar as convenções estéticas.

Nesse tempo eu estava subnutrido e estressado. Não agüentava mais o clima de Natal, que não é esse paraíso todo que a publicidade dos governos tenta nos impingir. É juma maquiagem para esconder o submundo onde vivem de fatos os natalenses pobres. Aqui vivemos e perecemos no anonimato, em contato com pessoas que estão espiritualmente muito distantes do progresso e bem próximas da bomba atômica. Por isso, aqui, me sinto emocionalmente um criminoso. Natal é uma cidade miserável onde se purga um karma. Cara, Natal é o inferno. Que cidade madrasta.

Uma outra vez, levado para a Delegacia de Roubos e Furtos, quase morri de apanhar para confessar crimes que não cometi. Foi um horror. O pior é que eles sabiam que eu não tinha culpa no cartório, mas mesmo assim queriam me obrigar a confessar. Depois disseram que me batiam porque eu era um cara muito folgado e, como negro e pobre, não podia andar vestido dessa forma, como se fosse um veado filhinho de papai... Quando me liberaram, o delegado de plantão, Karruzo Carlos, quis que eu fosse levado à sua sala, porque queria se despedir de mim. Quando entrei naquele antro ele meteu a mão com todo gosto na minha cara. E ria, e ria, e ria, enquanto eu apanhava como um reles malfeitor.

Saí da Delegacia acabadíssimo, sujo e sem esperança, sentindo que vivia numa cidade hostil. Quando fui preso, eu estava em frente do lugar onde é hoje o prédio do Memorial Câmara Cascudo. Eles vieram para cima de mim, pedindo documentos que eu não tinha e que, por estar naquela depressão toda, sem vontade de explicar que os havia perdido. Eu estava num estado que não tinha vontade de falar com ninguém e muito menos com a policia.

Privado do futuro e da esperança, eu andava pela cidade como um morto anda. Completamente sem esperança, eu me sentia exausto de existir... Cara, eu apanhei tanto nas mãos de Karruzo Carlos que, não agüentando mais, fiquei pirandélico. Pirei, cara, pirei, ao sentir que estava sozinho e que não havia alivio possível para o meu sofrimento. Aqui em Natal ninguém socorre ninguém. O natalense é o povo mais egoísta que conheço. Aqui é cada um por si e Deus por ele mesmo... Foi então, nesse estado de grande sofrimento psicológico e moral, que tive a idéia de procurar o Hospital Colônia Dr. João Machado, como o ultimo refugio, para me internar. Acho que, apesar de tudo, eu queria viver.

Em 1982, durante a campanha para eleição do governador, Blecaute foi detido e levado para a Delegacia de Tóxicos, na Avenida Hermes da Fonseca. Ficou preso durante quarenta e oito horas que foram de terror. A cela, montada no meio da sala, era uma espécie de caixote feito de barras de ferro. Media, aproximadamente, um metro e setenta centímetros por oitenta. Fiquei com um outro preso, homem acusado como traficante. Apanhei muito. Eles queriam me obrigar a confessar que usava drogas.

De madrugada, sem ter o que fazer, os soldados nos mandaram tirar a roupa e me obrigaram a fazer sexo oral com o meu companheiro de cela. Eles riam e gritavam, apontando as armas para a minha nuca, Chupa, negro, chupa...Chupa...Chupa... Eles fizeram isto só para me arrasar e se divertirem. Cara, foi uma coisa tremenda.

Nenhuma palavra descreveria o pesado silêncio que se fez entre nós. Blecaute, apesar dos anos decorridos desde então, vai até a janela e cospe seu nojo, limpado os lábios no dorso da mão de dedos compridos e delicados. Sirvo-lhe um copo dágua.

Esses massacres todos me levaram à loucura, cara. Eu me lembro que, na Primeira Delegacia, os soldados davam coronhadas em minha cabeça. E riam, riam de minha dor. Riam o tempo todo, enquanto me batiam...

Blecaute acende mais um cigarro, enquanto narra sua primeira internação no Hospital Colônia, em 1981, por iniciativa do Padre Sabino Gentilli e do Pastor Boaz Pedro. Ele havia acabado de estrear nas letras com o livro Duas Cabeças, uma edição alternativa com ilustração do artista Vicente Vitoriano. Lá, foi paciente de Hermano Paiva, de Salomai Gurgel e de Maurilton Morais, que se tomaram de interesse por seu caso. Fiquei internado por quase um ano. Como um animal extraterrestre, dopado, dormindo entre fezes e moscas, e, novamente, atrás das grades...

Algumas pessoas tomaram conhecimento das violências sofridas por Blecaute. O jornalista Flávio Rezende ficou indignado quando o viu chorando, impotente e indefeso, atrás das grades, sem ter cometido crime algum. Arregimentou apoios e fez o prestigioso semanário Dois Pontos publicar uma nota de repúdio.

Filho de Severino Borges e de Maria Felicia, separados e irreconciliáveis, Blecaute conta que nasceu no morro de Mãe Luiza. Menino ainda, para manter-se, vendia cocadas nas ruas da cidade e à noite dormia nas praças, para fugir à atmosfera pesada de sua casa, onde a mãe, os nervos estraçalhados pelo álcool e pela miséria, refugiava-se num mundo imaginário. O pai, perdido no oco do mundo, não dava noticias.

Extraído do Volume 1-3 de O Spleen de Natal
[2ª edição, Edufrn, 2000]


quinta-feira, 12 de março de 2009

são as perdas...


Uma arte
Elizabeth Bishop


A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde da perda
que o perdê-las não traz desastre.
Perca algo a cada dia. Aceita o susto de perder chaves,

e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
Pratica perder mais rápido mil coisas mais:

lugares, nomes, onde pensaste de férias ir.
Nenhuma perda trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe.

A última, ou a penúltima, de minhas casas queridas foi-se.
Não tarda aprender, a arte de perder.
Perdi duas cidades, eram deliciosas.

E, pior, alguns reinos que tive, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, nenhum desastre.
- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um enteamado),

mentir não posso.
É evidente: a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

Meu fofinho...


domingo, 8 de março de 2009

08 de Março


Lições de história
(Andréa Lima)

Eu não tenho nome,
pois sou muitas palavras,
Tenho o tempo da minha história
e me construo com ela,
me movo com ela,
costuro-me.

Sou retalhos da minha geração,
dos meus antepassados,
da minha natureza sincopada
de poesia, lutas, sofrimento,
sem fama, cheia de amores, cheia de dores,
sangramentos, violências.

Sou uma mulher de guizos,
terços, rezas,
fitas do Bonfim no braço,
sou dó, sol maior, revolução,
Sou feita de sonhos, de gentes, de dialéticas complexas,
de mãos que pintam poesias em papéis pálidos.
Sou a flauta doce, o som único do violino,
o rádio e suas ondas curtas,
sou o mar e seus tsunamis devastadores, imprevisíveis...


Sou a mulher segregada,
arrebatada por paixões implacáveis, patéticas,
apologéticas no sofrimento, no meu veneno, na minha porção de bruxa.
Mulher do choro, dos bandolins, da lírica do sofrer, do labutar.
Sou essa mulher que se levanta bem antes do sol espreguiçar
e vai para lida, roçar, cultivar, semear.


Sou o canto das lavadeiras,
a operária do chão de fábrica,
sou tantas jornadas de um trabalho cada vez mais explorado,
com salários desiguais e reduzidos.
Trabalho arduamente no lar que nem sequer é reconhecido.
Sou essa mulher proletária
que luta todo dia para ser também prosa e poesia.

sábado, 7 de março de 2009

Uma homenagem...



Loucas de pedra de açúcar
Andréa Lima


para as "Loucas"que conheci nas ruas do Recife em dia de luta

Loucas...
doidas mulheres,
ávidas de luta.
Loucas por direitos, aplausos,
conquistas...
Insanas damas de tons arco-íris,
loucas de pedra lilás,
loucas de pedra de açúcar,
telúricas, teatrais,
atrizes dos dramas reais.
Meninas mambembes,
brincantes, doces bruxas.


Loucas de tantas pedras,
gemas raras, feitas de mel,
forjadas de aço e luta, loucas por vida...
Loucas de sol, loucas de flor, loucas por risos,
loucas por trabalho, arte e festa.


Hoje tem espetáculo!
As loucas estão nas praças,
tomaram avenidas e
andam agitando o povo, acordando mulheres,
fortalecendo-as na luta.

Desçam as cortinas,
limpem o tablado,
varram as injustiças das ruas,
pois essas mulheres colocam a boca no mundo,
fazem barulhos, acedem piras e fogueiras...
Tocam sinos, revolvem a apatia,
com suas mímicas, movimentos,
expressões, gestos, palavras,
kabukis que transformam o nada...


Meninas-senhoras, doidas-maravilhas.
Mulheres cheias de dança, graça,
encantos, contos, poesias.
Hoje eu sorri, refleti e me inquietei,
Hoje eu vi as loucas pintar um outro mundo mundo...

quinta-feira, 5 de março de 2009


"O meu mundo não é como o dos outros,

Quero demais, exijo demais,

Há em mim uma sede de infinito,

Uma angústia constante

que nem eu mesma compreendo,

Pois estou longe de ser uma pessimista;

Sou antes uma exaltada,

com uma alma intensa, violenta, atormentada.

Uma alma que não se sente bem onde está,

que tem saudade... Sei lá de quê!"


(Florbela Espanca)

terça-feira, 3 de março de 2009

Um presente de Neruda




O dia não é hora por hora.

É dor por dor,
o tempo não se dobra,

não se gasta, mar, diz o mar,

sem trégua, terra, diz a terra,

o homem espera.

E só seu sino está ali entre os outros

guardando em seu vazio

um silêncio implacável

que se repartirá quando levante

sua língua de metal onda após onda.

De tantas coisas que tive,

andando de joelhos pelo mundo,

aqui, despido,

não tenho mais que o duro meio-dia do mar,

e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer

e sua advertência para deter-me.

Isto acontece para todo o mundo,

continua o espaço. E vive o mar.

Existem os sinos.


(Pablo Neruda)


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

frase para os dias de ontem e hoje...

"O que não provoca minha morte
faz com que eu fique mais forte"
(F. Nietzsche)


Poesia para Van Gogh

O frio corta feito
Faca cega,
impõe sua frialdade em tudo que acha
Mesmo que as paisagens se escondam
Na obscuridade da noite...
A solidão cortante rasga a carne que se despedaça,
Assim como a corroída razão.
Ao longe se vê
Um ponto morto,
Um oco. Corvos.
Tintas baratas.
Ciprestes.
genialida
insanidade
e de novo a solitária prisão...

(Andréa Lima)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Das terras de Fabião das Queimadas...

Vinho
Marize Castro

Se o queres seco
para molhar a garganta
eu o quero suave
para reinventar essa chama
se o queres branco
para velar a virgem
eu o quero vermelho do porto
para aportar
as paixões que me dividem

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009




"Não desejava morrer. a vida era boa. o sol aquecia. se não fossem os seres humanos..." (Mrs. Dalloway)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

"Dia 02 de Fevereiro é dia de festa no mar..."

Oração para Iemanjá

Salve Rainha do mar, minha mãe Janaína
Canto à Iemanjá
Adolê, Odoyá minha mãe!
Banha o meu corpo, limpa minha alma
Renova meu espírito, me abriga em teu íntimo
Mãe d’água Odoyá!
Bela sereia, deusa da beleza,
traz-me um amor, um beijo de mar

Traz pra mim as certezas de um presente próspero,
da saúde do corpo, a leveza da alma
Canta ao meu ouvido,
encanta os meus sentidos,
e eu me entrego ao mar
Banha meu corpo, limpa minha alma
Renova meu espírito, me abriga em teu íntimo
Mãe d’água Odoyá
Canto à Janaína!
Linda donzela, mulher dos sete mares,
teu porto está nos ares, onde quiser que esteja
Dá-me segurança, constância e prudência,
permite um banho de mar ao luar,
permite na areia da praia eu deitar...
faz real o meu sonhar mãe d’água,
traz amor pra eu amar
Canto a ti Iemanjá!
Adolê, Odoyá mainha!
Salve a Senhora dama,
Salve a Guerreira eleita princesa no templo do mar
Adolê, Odoyá!
Agradeço pelo que virá, pois o melhor será
Com a graça e a força de Iemanjá
Rogo a ti Janaína
Adolê, Odoyá! Minha mãe de alma!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009




Bilhete
Andréa Lima

Isso é ódio,
Rancor, ciúme ou amor?
São tantos sentimentos
Misturados em você
Que somando tudo dá nenhum.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Para nosso amigo Julião


A tristeza num dia de chuva

Para Júlião em dia de partida e saudade

Hoje o dia já nasceu cru,
hiato, ausente, gelado,
por isso eu não gosto muito de chuva,
do seu gosto sem gosto,
do seu céu cinza, nublado, parado.
Não gosto do seu cheiro,
da sua voz solitária, sombria,
da sua depressão diurna,
dos seus passos quebrando telhas,
descendo bicas, calçadas.
Não gosto da sua neblina, granizos,
guizos e lágrimas.
Nem de ventania, nem tempestades.
não gosto de vê-la pelas janelas embaçadas,
não gosto de vê-la orvalhada,
tão pouco tocá-la assim molhada.
mas toda chuva passa,
toda tristeza, todo desgosto, ferida,
melancolia se esvai em enxurradas,
até desaparecer nos sumidouros da vida.
Amanhã o dia vem com um sol de verão ainda mais brilhante
para aquecer a terra, secar os prantos e nos aquecer de qualquer invernada.
Agora fica a saudade e aquele cantinho na gente sempre preenchido
de sentimentos bons, de afago, presença e cumplicidade...
A chuva, as lágrimas, a partida para a outra estação
cumprem apenas o velho e necessário percurso da natureza.

( Andréa lima)

"De volta ao começo..."



Flora Figueiredo


Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo se há uma ponta de saída,
ou se a loucura vai num ritmo crescente até
subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado na própria trama redonda do novelo.

Chegada...

Quase não vinha... É a vida cheia de coisas, cheia de gentes, trabalho, ócio, poesias, jornais, cheia de partidas e chegadas.