Da série: “O Spleen de Natal” - [6-25]
DEU BLECAUTE NA POESIA
17 de Setembro de 2008
Por Franklin Jorge
Blecaute é o mais notório disfarce de Edgar Borges, seu duplo de vinte e sete anos, poeta, artista plástico, performático, pintor de paredes, eletricista e, sobretudo, um individuo eternamente suspeito aos olhos biliosos das policia que, mal orientada, violenta e autoritária, por dever de oficio, costuma ver suspeitos em toda a parte.
Hoje mesmo me aconteceu uma coisa chata, confessa. Quando eu ia atravessar a Avenida Rio Branco, na esquina da Rua João Pessoa, do outro lado da calçada um policial me chamou. Fui, e ele perguntou o meu nome e se eu era daqui mesmo de Natal, o que eu fazia, de onde vinha e para onde ia... Ele me interrogou porque estava grilado com o meu modelito. Ele achou estranha a minha produção e examinou-me dos pés à cabeça. Queria saber porque me visto assim e pediu meus documentos. Me revistou ali mesmo, no meio da rua, como se eu fosse um criminoso. Além disso não acreditou quando lhe disse que estava vestido desse jeito porque ia dar uma entrevista... Cara, quase entrei pelo cano quando lhe disse isso. O meganha não acreditou.
Essa não terá sido a primeira humilhação dessa natureza sofrida por Blecaute. Há muitos anos a policia o persegue e incomoda, embora ele não tenha cometido nenhum delito. Ele crê que a discriminação decorre do fato de ser ele negro, pobre e de se vestir bem, ou melhor, segundo um padrão estético inusitado. Personalíssimo.
Em Mossoró, quando fui fazer o lançamento de um pôster-poeta, em 1985, também passei por isso. Uma manhã, muito cedo, saí para dar uns roles pela cidade. E ao passar diante de uma delegacia, um policial que estava na porta debochou da minha produção. Isso é lá traje de homem, disse, porém não me importei e continuei na minha, sem ligar para aquele recalcado. Naquela ocasião eu estava vestido com uma roupa lilás bem folgada, porque eu curto me vestir assim...
Outra vez, em Jardim do Seridó, no outro extremo do estado, fui revistado e levado ao quartel da policia. Acusaram-me de estar usando pulseiras e boina, adereços que os policiais consideravam coisa de veado. Também queriam me obrigar a confessar que eu usava maconha. Estavam certos de que um negro vestido daquele jeito, usando boina e pulseiras, só podia ser um maconheiro. Dialético e pirandeliano, Blecaute suspira e acrescenta, É o meu traje a rigor que incomoda eles.
A lembrança de tantas situações vexatórias deixa Blecaute indignado. Sua voz, de natural sempre tão límpida e clara, emperra. E ele treme de raiva, de dor, de humilhação e de revolta diante do comportamento abusivo dos policiais que se divertem fazendo o mal. Sem perder o humor, informa que já fez turismo por todas as delegacias de Natal.
Cara, é uma coisa louca a gente olhar para aqueles dizeres – Vamos viver sem violência --, pintados nas portas das viaturas. O pior é que ainda pintaram aquela mão segurando uma flor. Puro descaramento do governo, que prega uma coisa e faz outra muito diferente. A contradição começa quando, ao levantar a vista, a gente vê dentro das viaturas aqueles trogloditas armados até os dentes de escopetas e metralhadoras, olhando pra gente por cima dos ombros. É aí que eu me pergunto: a quem o governo de Geraldo Melo quer enganar com essa história[] nunca a policia foi tão violenta como nessa época do Vamos viver sem violência.
No fim de 1983, a policia furou os meus testículos. De manhã bem cedo eles me pegaram e me levaram para um trecho da Via Costeira, que naquele tempo ainda era um deserto. Lá, furaram meus testículos com um sabre. Foi quando, simplesmente, vi a morte de frente, pois pensei que não sairia daquela com vida. Eram três homens; o cabo, um soldado e o motorista, que me pegaram pra Cristo. Um deles, de nome Andrade, ainda mora na Rua Guanabara, por onde passo todos os dias saindo ou voltando para casa. Eles introduziram ainda um arame através do meu pênis. Eles queriam satisfazer em mim instintos bestiais. Nunca tive tanto medo em minha vida...
Seus gritos de dor foram ouvidos em Mãe Luiza, conta Blecaute. Muita gente correu de suas casas para ver o que estava acontecendo lá embaixo. E os policiais, que por natureza são covardes, sentindo-se observados pelos moradores que nos espiavam do alto do morro, largaram de mim. Blecaute ficou como morto sobre a areia, despido e estrebuchante, esvaindo-se em sangue.
Blecaute foi preso na Praia do Meio, nas imediações do Bar do Boliviano, muito conhecido pelos malucos da área. Ficava no chamado Baixo, um lugar de boemia e prostituição. Os policiais, um dos quais era seu vizinho, implicaram com a excentricidade do seu modelito criado para arrasar as convenções estéticas.
Nesse tempo eu estava subnutrido e estressado. Não agüentava mais o clima de Natal, que não é esse paraíso todo que a publicidade dos governos tenta nos impingir. É juma maquiagem para esconder o submundo onde vivem de fatos os natalenses pobres. Aqui vivemos e perecemos no anonimato, em contato com pessoas que estão espiritualmente muito distantes do progresso e bem próximas da bomba atômica. Por isso, aqui, me sinto emocionalmente um criminoso. Natal é uma cidade miserável onde se purga um karma. Cara, Natal é o inferno. Que cidade madrasta.
Uma outra vez, levado para a Delegacia de Roubos e Furtos, quase morri de apanhar para confessar crimes que não cometi. Foi um horror. O pior é que eles sabiam que eu não tinha culpa no cartório, mas mesmo assim queriam me obrigar a confessar. Depois disseram que me batiam porque eu era um cara muito folgado e, como negro e pobre, não podia andar vestido dessa forma, como se fosse um veado filhinho de papai... Quando me liberaram, o delegado de plantão, Karruzo Carlos, quis que eu fosse levado à sua sala, porque queria se despedir de mim. Quando entrei naquele antro ele meteu a mão com todo gosto na minha cara. E ria, e ria, e ria, enquanto eu apanhava como um reles malfeitor.
Saí da Delegacia acabadíssimo, sujo e sem esperança, sentindo que vivia numa cidade hostil. Quando fui preso, eu estava em frente do lugar onde é hoje o prédio do Memorial Câmara Cascudo. Eles vieram para cima de mim, pedindo documentos que eu não tinha e que, por estar naquela depressão toda, sem vontade de explicar que os havia perdido. Eu estava num estado que não tinha vontade de falar com ninguém e muito menos com a policia.
Privado do futuro e da esperança, eu andava pela cidade como um morto anda. Completamente sem esperança, eu me sentia exausto de existir... Cara, eu apanhei tanto nas mãos de Karruzo Carlos que, não agüentando mais, fiquei pirandélico. Pirei, cara, pirei, ao sentir que estava sozinho e que não havia alivio possível para o meu sofrimento. Aqui em Natal ninguém socorre ninguém. O natalense é o povo mais egoísta que conheço. Aqui é cada um por si e Deus por ele mesmo... Foi então, nesse estado de grande sofrimento psicológico e moral, que tive a idéia de procurar o Hospital Colônia Dr. João Machado, como o ultimo refugio, para me internar. Acho que, apesar de tudo, eu queria viver.
Em 1982, durante a campanha para eleição do governador, Blecaute foi detido e levado para a Delegacia de Tóxicos, na Avenida Hermes da Fonseca. Ficou preso durante quarenta e oito horas que foram de terror. A cela, montada no meio da sala, era uma espécie de caixote feito de barras de ferro. Media, aproximadamente, um metro e setenta centímetros por oitenta. Fiquei com um outro preso, homem acusado como traficante. Apanhei muito. Eles queriam me obrigar a confessar que usava drogas.
De madrugada, sem ter o que fazer, os soldados nos mandaram tirar a roupa e me obrigaram a fazer sexo oral com o meu companheiro de cela. Eles riam e gritavam, apontando as armas para a minha nuca, Chupa, negro, chupa...Chupa...Chupa... Eles fizeram isto só para me arrasar e se divertirem. Cara, foi uma coisa tremenda.
Nenhuma palavra descreveria o pesado silêncio que se fez entre nós. Blecaute, apesar dos anos decorridos desde então, vai até a janela e cospe seu nojo, limpado os lábios no dorso da mão de dedos compridos e delicados. Sirvo-lhe um copo dágua.
Esses massacres todos me levaram à loucura, cara. Eu me lembro que, na Primeira Delegacia, os soldados davam coronhadas em minha cabeça. E riam, riam de minha dor. Riam o tempo todo, enquanto me batiam...
Blecaute acende mais um cigarro, enquanto narra sua primeira internação no Hospital Colônia, em 1981, por iniciativa do Padre Sabino Gentilli e do Pastor Boaz Pedro. Ele havia acabado de estrear nas letras com o livro Duas Cabeças, uma edição alternativa com ilustração do artista Vicente Vitoriano. Lá, foi paciente de Hermano Paiva, de Salomai Gurgel e de Maurilton Morais, que se tomaram de interesse por seu caso. Fiquei internado por quase um ano. Como um animal extraterrestre, dopado, dormindo entre fezes e moscas, e, novamente, atrás das grades...
Algumas pessoas tomaram conhecimento das violências sofridas por Blecaute. O jornalista Flávio Rezende ficou indignado quando o viu chorando, impotente e indefeso, atrás das grades, sem ter cometido crime algum. Arregimentou apoios e fez o prestigioso semanário Dois Pontos publicar uma nota de repúdio.
Filho de Severino Borges e de Maria Felicia, separados e irreconciliáveis, Blecaute conta que nasceu no morro de Mãe Luiza. Menino ainda, para manter-se, vendia cocadas nas ruas da cidade e à noite dormia nas praças, para fugir à atmosfera pesada de sua casa, onde a mãe, os nervos estraçalhados pelo álcool e pela miséria, refugiava-se num mundo imaginário. O pai, perdido no oco do mundo, não dava noticias.
Extraído do Volume 1-3 de O Spleen de Natal
[2ª edição, Edufrn, 2000]