sexta-feira, 19 de junho de 2009

Feliz Aniversário Chico... 65 anos de poesia!


Mulher, vou dizer quanto te amo

(Chico Buarque)



Mulher, vou dizer quanto te amo
Cantando a flor
Que nós plantamos
Que veio a tempo
Nesse tempo que carece
Dum carinho, duma prece
Dum sorriso, dum encanto
Mulher, imagina o nosso espanto
Ao ver a flor
Que cresceu tanto
Pois no silêncio mentiroso
Tão zeloso dos enganos
Há de ser pura
Como o grito mais profano
Como a graça do perdão
E que ela faça vir o dia
Dia a dia mais feliz
E seja da alegria
Sempre uma aprendiz
Eu te repito
Este meu canto de louvor
Ao fruto mais bendito
Desse nosso amor

quinta-feira, 18 de junho de 2009




Aula de desenho
(Maria Esther Maciel)


Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço.
De aço, o papel.
Esboço uma face a régua
e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato.
Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim,
afasto-me e constato:
na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

sexta-feira, 12 de junho de 2009


Como te amo?
Elizabeth Barrett Browning

Como te amo?

Deixa-me contar de quantas maneiras.

Amo-te até ao mais fundo,

ao mais amplo e ao mais alto

que a minha alma pode alcançar

buscando, para além do visível dos limites

do Ser e da Graça ideal.

Amo-te até às mais ínfimas necessidades

de todos os dias à luz do sol e à luz das velas.

Amo-te com liberdade,

enquanto os homens lutam pela Justiça;

Amo-te com pureza,

enquanto se afastam da lisonja.

Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas

e com a fé da minha infância.

Amo-te com um amor que me parecia perdido

- quando perdi os meus santos -

amo-te com o fôlego,

os sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!

E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Instante
Anna Maria Feitosa

A vida é essa luz
No teu rosto
é esse brilho inconstante
dos teus olhos na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
nada mais.

Eu e você?
(Andréa Lima)

Entre eu e você
o incabível,
A comunhão,
O espetáculo, o ostracismo.
A alcova, o chão.

Entre eu e você
o tempo,
um dia de dezembro
e o passado atravessado em nós.

Eu, você e o impulso,
a desordem, o tumulto
a intifada, a revolução.
Entre eu e você,
uma linha imaginária
Que nos separa,
Paredes vazadas, persianas
olhares tangenciais,
imprecisos, desfocados
opacos.

Entre eu e você, a longitude,
Hiatos, ilhas pacíficas, antárticas,
ínfimas, geladas,
florestas intocadas.

Entre eu e você um sugadouro
de vontade, delícias, pornografias
que se esvai pelo ralo da pia,
dos utensílios de mim e que um dia foi de tantos nós.