1ª Lição para esquecer...
(Andréa Lima)
Como esquecer?
Talvez só por hora esmaecer,
só por instantes não lembrar,
rasgar fotos,
se reconstruir pelas ausências,
e recomeçar ...
Como esquecer?
Rasgar poemas,
Arrumar caixas com nossos pertences,
Só por hora não chorar,
Cerrar as pálpebras,
se perder aos poucos,
preparar pela alquimia da dor
a nossa partida, o desprezo, a solidão da gente.
Como esquecer?
Apagar com borracha bicolor a nossa história idílica
E sem súplicas lançar mão de amnésias induzidas .
Esquecer aromas, corpo, beijo, risadas,
fantasias, cumplicidades
e só dizer adeus.
Como esquecer?
Cortar amigos comuns na convalescência,
desfazer projetos,
desmontar casa,
guardar porta-retratos,
discos, livros,
Destruir bilhetes de viagens,
Despistar presenças.
Como esquecer?
Fingir coragem, brio,
ir na farmácia na busca de um remédio para não-lembrança,
que faça desaparecer os instantes, os sonhos,
as parecenças,
os pretéritos perfeitos e imperfeitos,
comprar um ANADOR,
um laxante,
para esvaziar o que tiver ainda preso
como visco nas entranhas.
Como esquecer?
não falar que valeu a pena,
enterrar a nossa trilha sonora
e plantar o silencio entre nós.
Não ler nossas poesias,
Não assistir os filmes que separamos e odiar para sempre pipoca.
Como esquecer?
Não passar mais por aquela praça,
não fazer os mesmo caminhos,
mudar a rota,
o cheiro.
Para esquecer,
é preciso desconjurar,
inventar mais defeitos.
Ter consciência das ruínas, dos trapos,
Dessa solidão consentida,
Desse tempo deserto e sem lucidez.
Como esquecer?
Içar velas,
Saudar a incerteza,
Recolher a âncora,
E numa lufada de esperança
Ir...
E dessa obediência cega de mudança
Saber a hora de partir
E eu vou, eu sou...
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
quinta-feira, 24 de março de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
Rosto de Ti
(Mario Benedetti)
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
(Mario Benedetti)
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.
Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.
Estou cheio de sombras
de noites [...]
![]() |
| Monet |
quarta-feira, 16 de março de 2011
Eu e você?
Eu e você?
(Andréa Lima)
Entre eu e você
o incabível,
a comunhão,
o espetáculo, o ostracismo.
A alcova, o chão.
Entre eu e você
o tempo,
um dia de dezembro
e o passado atravessado em nós.
Eu, você e o impulso,
a desordem, o tumulto
a intifada, a revolução.
Entre eu e você,
uma linha imaginária
que nos separa,
paredes vazadas, persianas
olhares tangenciais,
imprecisos, desfocados
opacos.
Entre eu e você, a longitude,
hiatos, ilhas pacíficas, antárticas,
ínfimas, geladas,
florestas intocadas.
Entre eu e você um sugadouro
de vontade, delícias, pornografias
que se esvai pelo ralo da pia,
dos utensílios de mim
e que um dia foi de tantos nós.
(Andréa Lima)
Entre eu e você
o incabível,
a comunhão,
o espetáculo, o ostracismo.
A alcova, o chão.
Entre eu e você
o tempo,
um dia de dezembro
e o passado atravessado em nós.
Eu, você e o impulso,
a desordem, o tumulto
a intifada, a revolução.
Entre eu e você,
uma linha imaginária
que nos separa,
paredes vazadas, persianas
olhares tangenciais,
imprecisos, desfocados
opacos.
Entre eu e você, a longitude,
hiatos, ilhas pacíficas, antárticas,
ínfimas, geladas,
florestas intocadas.
Entre eu e você um sugadouro
de vontade, delícias, pornografias
que se esvai pelo ralo da pia,
dos utensílios de mim
e que um dia foi de tantos nós.
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