quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Para quem precisa esquecer...

1ª Lição para esquecer...


(Andréa Lima)



Como esquecer?

Talvez só por hora esmaecer,

só por instantes não lembrar,

rasgar fotos,

se reconstruir pelas ausências,

e recomeçar ...

Como esquecer?

Rasgar poemas,

Arrumar caixas com nossos pertences,

Só por hora não chorar,

Cerrar as pálpebras,

se perder aos poucos,

preparar pela alquimia da dor

a nossa partida, o desprezo, a solidão da gente.

Como esquecer?

Apagar com borracha bicolor a nossa história idílica

E sem súplicas lançar mão de amnésias induzidas .

Esquecer aromas, corpo, beijo, risadas,

fantasias, cumplicidades

e só dizer adeus.

Como esquecer?

Cortar amigos comuns na convalescência,

desfazer projetos,

desmontar casa,

guardar porta-retratos,

discos, livros,

Destruir bilhetes de viagens,

Despistar presenças.

Como esquecer?

Fingir coragem, brio,

ir na farmácia na busca de um remédio para não-lembrança,

que faça desaparecer os instantes, os sonhos,

as parecenças,

os pretéritos perfeitos e imperfeitos,

comprar um ANADOR,

um laxante,

para esvaziar o que tiver ainda preso

como visco nas entranhas.

Como esquecer?

não falar que valeu a pena,

enterrar a nossa trilha sonora

e plantar o silencio entre nós.

Não ler nossas poesias,

Não assistir os filmes que separamos e odiar para sempre pipoca.

Como esquecer?

Não passar mais por aquela praça,

não fazer os mesmo caminhos,

mudar a rota,

o cheiro.

Para esquecer,

é preciso desconjurar,

inventar mais defeitos.

Ter consciência das ruínas, dos trapos,

Dessa solidão consentida,

Desse tempo deserto e sem lucidez.

Como esquecer?

Içar velas,

Saudar a incerteza,

Recolher a âncora,

E numa lufada de esperança

Ir...

E dessa obediência cega de mudança

Saber a hora de partir

E eu vou, eu sou...

domingo, 29 de maio de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

Rosto de Ti


(Mario Benedetti)

Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.
Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.
Estou cheio de sombras
de noites [...]




 

Monet


quarta-feira, 16 de março de 2011

Eu e você?

Eu e você?
(Andréa Lima)

Entre eu e você

o incabível,

a comunhão,
o espetáculo, o ostracismo.
A alcova, o chão.

Entre eu e você
o tempo,
um dia de dezembro
e o passado atravessado em nós.


Eu, você e o impulso,
a desordem, o tumulto
a intifada, a revolução.

Entre eu e você,
uma linha imaginária
que nos separa,
paredes vazadas, persianas
olhares tangenciais,
imprecisos, desfocados
opacos.

Entre eu e você, a longitude,
hiatos, ilhas pacíficas, antárticas,
ínfimas, geladas,
florestas intocadas.


Entre eu e você um sugadouro
de vontade, delícias, pornografias
que se esvai pelo ralo da pia,
dos utensílios de mim
e que um dia foi de tantos nós.