sábado, 29 de março de 2014

Carta testamento
(Andréa lima)
Para a pessoa amada,
Deixo o meu amor primaz, adolescente,
Enraizado.
Deixo o meu sorriso mais alegre, jocoso, infantil,
Deixo as plumas dos meus carnavais,
Deixo também a minha lágrima mais pungente,
A minha dor de amor perene, crônica,
Deixo a minha poesia, meus cadernos,
Meus segredos já etiquetados em caixinhas adornadas.
Deixo a minha caneta, o último gole, o último suspiro,
O epitáfio escolhido. Deixo o mundo, levo pouco.
Deixo chaves, trancas, sapatos, saltos pequenos, grandes, ousados.
Deixo o relógio em que marquei o tempo,
Que pouco aproveitei e tanto desperdicei.
Assim deixo também o tédio,
Ah, deixo saudades, assim espero!
Deixo numa lata de biscoito cartas e bilhetes,
Meus devaneios e dentro do meu cofre meus medos.
Deixo fotos, CD´s, DVD´s e claro meus livros.
Deixo a minha estrela do mar,
Meu vestido de ondas e água-marinha.
Deixo minhas armaduras, armas de “Jorge”,
Meus sonhos, utopias, revoluções.
Deixo amigas, amigos, uma família que tanto amei,
Esta é a minha herança.
Deixo o trabalho, a cidade, a marcha em curso para emancipação.
Deixo o lirismo, a música, o gozo, aquele beijo que não esqueço,
Deixo a minha praia com seus barcos encantados.

E neste inventário vou me deixando também.
Já sinto alívio e pressinto que a chama da vela se apaga,
 quase não há mais palavra, mais movimento, vida,
agora,
mais nada...




segunda-feira, 24 de março de 2014

Na esquina do pensamento
(Andréa Lima)

em 24/03/14


sempre carrego dentro de mim um poema,
como uma teia de aranha que vai sendo construída, tecida fio à fio
que se desenha com linhas expurgadas para fora de mim
e vai enredando todos os sentimentos num novelo diário.
Eu, uma aranha solitária a adornar as paredes da casa,
os meus muros, as minhas prisões.
Eu presa na minha própria rede, incrédula e perdularia,
cheia de medos, assombros e pesadelos.
Talvez ainda hoje desapareça desse mundo
mas enquanto não varro todo pó e as nódoas da minha casa
eu e minha poesia permaneceremos em pequenos recantos, transparante
quase invisível, quase indesejada, só.

Meu momento

(Andréa Lima)

Ah, a poesia…
Meu suspiro,

Meu sustento, minha veia mais libertária
Por onde passeia o meu oxigênio,
Por onde corre meu veneno...
Amante (in)fiel, renascida,
enlouquecida, extasiada,
Minha perdição,
Anti-bússola que me desorienta,
Que me faz rodopiar em bailes que invento,  
voar nas asas de uma gaivota
por costas que ainda não fui,
em diálogos profundos com o mar
Que não me pede explicação, que não me exige nada,
Nem tempo para encontro, nem hora marcada,
Apenas palavras para se locupletar,
Apenas traços, verbetes
Apenas um coração que devaneia,
Somente eu e a poesia
a deriva num mar de tantas tormentas e vendavais...